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O <span>Azulejo</span>

O Azulejo

Ainda que o Azulejo não tenha tido a sua origem em Portugal, em nenhum outro país europeu este material recebeu um tão expressivo e original tratamento, adaptando-se sempre aos condicionalismos económicos, sociais e culturais, nem a sua utilização atingiu a complexidade e amplitude, que transcendeu o estrito papel decorativo, atingidas entre nós.

No que se refere à azulejaria, Santarém dispõe de um património significativo da importância que este revestimento assumiu e das diferentes funções que patenteou no país ao longo de 5 séculos (a partir do séc. XVI).

Observando atentamente o azulejo padrão da cidade compreende-se a forma como a sua variada tipologia revestiu e animou grandes superfícies, seja no interior de igrejas do séc. XVII, seja nas fachadas de prédios de arrendamento do séc. XIX. Encontramos igualmente azulejo figurativo, do séc. XVII e XVIII, veiculando a enunciação de mensagens através das quais se afirmaram poderes e, já na primeira metade do séc. XX, se propagaram valores que tentaram fazer reviver grandes feitos do passado ou retornar a uma natureza idealizada.

De azulejos de padrão hispano-mouriscos, da primeira metade do séc. XVI, não existe em Santarém nenhum núcleo relevante, ainda que grande número de exemplares reste na Reserva do Museu Municipal. Da segunda metade deste século, e no Museu, guarda-se um mostrador-relógio maneirista, proveniente da torre da Igreja da Graça, com representação de querubins que simbolizam os quatro ventos.

No séc. XVII, a Igreja colocada perante o problema de decorar as vastas superfícies desadornadas dos seus templos e empenhada em difundir os valores contra-reformistas saídos do Concílio de Trento, manteve-se como o grande encomendador. A nobreza, por seu lado, fez também grandes encomendas para os seus palácios.

A produção da primeira metade daquele século foi dominada pela criação de azulejo de padrão, o qual atingiu, na IGREJA DE SANTA MARIA DE MARVILA um dos seus expoentes máximos no nosso país. Este templo recebeu, entre 1617 e 1639, um revestimento de mais de 65.000 peças que forram 1200 m2 de superfície.

Nesta igreja, duas épocas e dois gostos distintos estão representados na sua azulejaria. A primeira (colocada entre 1617 e 1620), ilustrada através de azulejos enxaquetados ou de caixilho, azuis e brancos, que revestem as três capelas da cabeceira e as paredes sobre os arcos da mesma. Este tipo de decoração, que começara a ser utilizada no século anterior, permite a obtenção de um poderoso efeito visual através de meios simples: a colocação oblíqua de azulejos brancos separados entre si por estreitas tarjas azuis ou verdes e pequenos quadrados cerâmicos também dispostos obliquamente, conduzindo à formação de ritmos contrastantes com as linhas horizontais e verticais da arquitectura. Notável a forma cuidada como estes azulejos se integram na arquitectura acompanhando as linhas dos arcos ou enquadrando a lápide e a pedra de armas existentes no absidíolo direito. Uma segunda campanha (1635/39) é revelada através do revestimento das naves laterais com padrão. Enquadrados por um largo conjunto de guarnições que inclui duas fiadas de frisos e uma cercadura a que se segue uma barra, justificam plenamente o nome de “tapetes” por que são conhecidos. A completar o revestimento da igreja, entre as arcarias das naves, painéis de brutesco figurando emblemas marianos em cartela a qual, por sua vez, tem por debaixo legendas dentro de moldura.

Na primeira metade do séc. XVIII o azulejo de pintura a azul sobre fundo branco, que começara a ser utilizado na última década da centúria anterior, domina por completo a produção. Mestres com formação segura no campo da pintura a óleo impõem-se nos primeiros trinta anos, “assinando” obras, por vezes monumentais, de perfeita integração arquitectónica, o que, aliás, foi preocupação constante da nossa azulejaria.

A Igreja, a Nobreza e a Coroa, à semelhança do que acontecera no século anterior e do que se prolongará até finais de setecentos, são os responsáveis pela totalidade das encomendas azulejares, as quais reflectem os seus gostos e preocupações. Assim, se cenas de caça, mitológicas e de género, figuram incessantemente em espaços palacianos, a Igreja e, dentro dela, as múltiplas ordens religiosas, continua empenhada na divulgação dos seus princípios, encontrando no azulejo um meio privilegiado de difusão de mensagens.

Na segunda metade do século predominam as cenas profanas, agora emolduradas por ornatos rococó e neoclássicos, mas também se multiplicam os painéis hagiográficos. Paralelamente, deu-se continuidade à produção de azulejos de padrão, um pouco esquecida durante a primeira metade do século, mas que após o terramoto de 1755 se revitaliza, tendo em vista o revestimento dos edifícios que se construíram em Lisboa. Esta padronagem antecipa, no seu carácter utilitário, o azulejo que, a partir do segundo quartel do séc. XIX, vai forrar milhares de prédios de arrendamento.

O SEMINÁRIO PATRIARCAL, detém um importantíssimo núcleo setecentista, constituído ao longo de sucessivas campanhas, formando todavia, no seu conjunto, um acervo elucidativo do papel desempenhado por esta arte decorativa no Portugal do séc. XVIII. Tendo início nas escadas que ligam a portaria ao primeiro andar, corre um silhar de azulejos do segundo quartel do século. No piso superior, a que a escadaria conduz, existe um imenso corredor atravessado transversalmente por outros mais pequenos. Aí, o silhar da escadaria (também presente no átrio que antecede o corredor, figurando cenas de batalhas), multiplica-se por várias dezenas de painéis de temática profana, como sejam caçadas, paisagens bucólicas e de portos, em que evoluem múltiplos personagens que se fazem transportar em coches, liteiras, galeotas e bergantins. De bom desenho, são estes azulejos típicos do período da nossa azulejaria comummente designado por “Grande Produção Joanina”, coincidente em boa parte com o 2º quartel do século, no qual se multiplicaram este tipo de representações.

De cerca de 1740 são os azulejos ornamentais que forram as paredes do actual refeitório. Em dois tons de azul, incluem-se na produção que anuncia o regresso à policromia que passará a estar patente em toda a azulejaria nacional a partir de 1750. Este retomar da cor iniciara-se cerca de 1730 no Palácio de Santo Antão do Tojal, onde “figuras de convite”, colocadas na escadaria, foram pintadas a azul mas evidenciando pintura a amarelo em partes dos seus uniformes, de forma a simular bordados a ouro. Este primeiro sinal de mudança de gosto foi seguido por outros em que se recorreu a dois tons de azul para quebrar a monocromia da composição.

Num átrio que antecede o refeitório está colocado um silhar rococó de cerca de 1760-65 com Simbologia Mariana. Nas antigas salas de aula do Liceu encontram-se inúmeros silhares neoclássicos, do último quartel do século, de delicado efeito decorativo. Assentando, quer em duas, quer em três filas de azulejos esponjados de rodapé, têm diferentes comprimentos e alturas correspondentes ao espaço disponível. Guarnecidos com cercadura policroma ou constituída por azulejos com motivos a azul até metade e a restante preenchida com esponjado manganês, são essencialmente compostos por padronagem neoclássica de decoração floral, no centro da qual figura um medalhão losangular, circular ou oval. Dentro dos diferentes medalhões representam-se paisagens e pequenas figuras pintadas num traço muito fino a azul ou manganês. Na “Sala dos Actos” existe também azulejaria neoclássica (um silhar de cerca de 1800), em que diversos medalhões com cenas idênticas às anteriores são acompanhados por uma decoração de grinaldas que pássaros sustêm com o bico, urnas, flores e enrolamentos de folhas de acanto. Assenta o silhar em padronagem também neoclássica, guarnecida por cercadura a azul e, por sua vez, colocada em cima de uma fila de azulejos de rodapé esponjados a azul.

Numa das salas da actual CÂMARA MUNICIPAL DE SANTARÉM está colocado um silhar rococó do terceiro quartel do século representando as “virtudes dos vereadores” conjunto que não foi concebido propositadamente para este local, mas que foi transferido do edifício que, à época do seu fabrico, albergava a Câmara. São dez as virtudes representadas através de figuras alegóricas, sob cada qual figura uma legenda identificativa: Zelo, Abondansia, Onião, Emtendimento, Piedade, Pordência, Respeito, Justiça, Selencio, Providencia.

Os primeiros trinta anos do séc. XIX foram para a azulejaria portuguesa de acentuada decadência, o que se ficou a dever a uma grande instabilidade política que o país conheceu, a qual começou com as “invasões francesas” e culminou numa desgastante guerra civil. O ano de 1834, em que terminou este último conflito, assistiu ao início da ascensão ao poder de uma dinâmica burguesia que irá chamar a si o reactivar do comércio e indústria que se encontravam praticamente paralisados. As fábricas de cerâmica vão então multiplicar-se, em especial no Porto e Lisboa mas, no que ao azulejo concerne, a sua qualidade está muito aquém dos requintados painéis de setecentos. O que agora se passa a fabricar é um azulejo utilitário, destinado ao revestimento de fachadas de prédios de arrendamento.

O Centro Histórico de Santarém possui várias dezenas destas fachadas azulejadas, sendo possível encontrar alguns dos mais representativos padrões que à época se executaram nas grandes fábricas de Lisboa, nomeadamente Viúva Lamego e Sacavém.

Um dos mais interessantes padrões estampilhados produzidos pela Viúva Lamego, conhecido na gíria dos operários pelo nome de “travessão”, encontra-se nos números 8 a 10 da PRAÇA SÁ DA BANDEIRA e, ocupando uma grande extensão, no 18 a 22 da RUA MIGUEL BOMBARDA. Tem como base um mesmo azulejo centrado por um losango verde com listas oblíquas a preto e nos centros, como elementos de ligação, um quarto de estrela ou de um elemento inspirado na “ponta de diamante” seiscentista que uma vez junto nos outros três quartos restantes completam os motivos. Tendo apenas um azulejo como base criou-se um complexo padrão que permite várias leituras conforme a distância do espectador em relação ao local em que se encontra situado, característica que é aliás comum a boa parte desta produção oitocentista.

Também da Fábrica de Sacavém a cidade possui alguns bons exemplares. Na sua maioria monocromos, não deixam os padrões desta fábrica de produzir belos efeitos decorativos, algumas vezes realçados pela proximidade ou confronto de fachadas azulejadas com diferentes padrões. É o caso de dois edifícios frontais na RUA Iº DE DEZEMBRO com uma padronagem a azul e outro a castanho. Ambos fazem esquina, prolongando-se por outras artérias (M. Bombarda e C. Ivens). De salientar o remate da padronagem monocroma por barra policroma Arte Nova de motivo floral no primeiro, e com uma sucessão de pavões no segundo.

Ligados à produção das fábricas estiveram activos nesta época de multiplicação industrial do azulejo, pintores qualificados que anunciam a azulejaria historicista dos princípios do nosso século.

Encontra-se em Santarém, na RUA C. IVENS, 47 (loja a “Barateira”) um interessante conjunto de cinco painéis do terceiro quartel do século, alguns dos quais se encontram, infelizmente, “remendados” com azulejos que lhe não pertencem, colocados em substituição de originais que se perderam. Dois dos painéis são figurativos e representam o Comércio e a Indústria. São secundados por um outro, ocupado por um medalhão desenvolvido verticalmente, no centro do qual se encontra a legenda “João Cesário da Costa” (eventualmente o primeiro proprietário da loja) e dois com vasos de flores.

Da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, fundada em 1884 por Rafael Bordalo Pinheiro, o nº 91, da RUA 1º DEZEMBRO, prédio de sabor neo-islâmico, tem por cima da porta um friso formado por azulejos de inspiração hispano-mourisca, produto típico desta fábrica que recuperou inúmeros modelos mudéjares e renascentistas. Ladeando a mesma, revestimento de azulejos formado por um padrão relevado, verde e branco, de idêntica inspiração, conhecido pela designação de “Pé de Galo”. No 1º andar do nº 84 a 86 da RUA SERPA PINTO está colocado um padrão, também relevado, formado por cabeças de nabo de que irradiam ramagens e flores.

Nas primeiras quatro décadas do séc. XX a azulejaria portuguesa foi dominada por um gosto historicista e nacionalista que se expressou sobretudo pela decoração de mercados e estações de caminhos-de-ferro, com painéis em que se representam acontecimentos maiores da História de Portugal, cenas alusivas às principais actividades laborais ou de lazer de cada região ou, ainda, aos monumentos mais significativos. Alguns destes painéis revelam um desenho qualificado, traçado por pintores de prestígio na época. Na maior parte dos casos, o tema era pintado a azul, sendo a moldura de inspiração joanina ou rococó, policroma.

Entre 1930 e 34 a cidade parece ter conhecido uma autêntica campanha azulejar, pois datam deste período todos (para além dos painéis da CP, de 1927) os restantes núcleos de azulejos de pintura naturalista aí existentes, sendo, sem dúvida, o do MERCADO MUNICIPAL o mais interessante. A temática dos painéis é alusiva à região: monumentos escalabitanos, trabalhos no campo, faina no rio Tejo, touradas e criação de touros, todos da Fábrica de Sacavém. Além do intrínseco valor artístico, estes painéis são fonte de informação para a sociologia, história, arqueologia industrial e outros.

De 1932, e igualmente produzidos em Sacavém, são os dois painéis colocados no antigo QUARTEL DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS de pintura a azul, mais claro na cena e gradualmente mais escuro da moldura até aos azulejos marmoreados que os limitam; neles se representam veículos utilizados pela corporação em diferentes épocas.

Finalmente, registe-se que um banco no JARDIM DA PORTA DO SOL é forrado por azulejos do mesmo ano e fabrico, estando representada no espaldar a conquista de Santarém.

Nota: Texto de Guiomar Fragoso